1 hora de ida e 1 hora na volta, da PUC-Rio para o cartório eleitoral na Miguel Lemos, apenas para entregar ao TRE um comprovante de que eu realmente fui submetido a uma cirurgia na quinta-feira que antecedeu o pleito do segundo turno das eleições de 2008, o que justifica minha ausência como presidente da mesa. Agora eu tenho o valioso atestado de quitação com meus deveres eleitorais, necessário para a admissão no meu novo emprego (também é o meu primeiro emprego
de verdade).
Já que eu estava lá (e sabia que ao final do dia teria perdido mais de duas horas), tive vontade de encher o saco dos funcionários (tadinhos).
Perguntei quais são as probabilidades de ser convocado novamente, ao que fui respondido que não precisava me preocupar, a não ser que quisesse me voluntariar. Veio em seguida uma explicação de que o número de voluntários era quase insignificante. Imagino que seria maior este número se os estudantes secundaristas (que podem votar a partir dos 16) pudessem ser mesários, afinal isto faria uma boa diferença no currículo deles.
Infelizmente, para ser mesário é preciso ser criminalmente imputável. Afinal, mesários são criminosos eleitorais em potencial. Quem mais aceitaria trabalhar gratuitamente no domingo e levar desaforo para casa se não fosse para se vingar do estado? Isso me deu a idéia de perguntar (só por diversão) se ninguém nunca tinha pensado em remunerar os mesários, uma diária de salário mínimo já seria o bastante para criar fila de candidatos em todos os cartórios. A resposta foi a melhor: "As eleições já custam muito caro ao Estado do jeito que são hoje, não tem como aumentar ainda mais as despesas remunerando os mesários".
Na hora, pensei nos salários dos
7 709 novos vereadores que o Brasil passará a ter em 2012 ou mesmo antes disso.
Este custo, se não me engano não pesa muito no orçamento dos cofres públicos. Se pesa, é porque mesmo assim o trabalho deles é valorizado. Já o trabalho do mesário parece não ser digno de pagamento. Fazendo as contas sem muito rigor: usando o custo de um vereador na Bahia por 2 anos (porque foi a quantia que eu encontrei, não sei se os de lá são mais caros ou mais baratos que a média), multiplicando por 7 709, daria para pagar uma diária de R$50,00 (um décimo do salário mínimo) a quase 600 milhões de brasileiros, se apenas existissem tantos brasileiros no mundo. Então imagino que ainda vale a pena sonhar com o fim da escravidão dos mesários.
Infelizmente, a desobediência civil dos mesários que se recusem a responder à convocação pode ser punida rigorosamente apenas negando-lhes a declaração de quitação dos deveres eleitorais. Então, minha única forma de contribuir com essa causa de um homem só é jogar um texto desses no blog de vez em quando, na esperança de que inspire alguém e de que um movimento mais sério se forme no futuro. Até que este dia chegue, reclamações de mesários serão vistas apenas como rabugentice de quem perdeu o domingo; e o trabalho do mesário será apenas uma espécie de "dever cívico" que alguns poucos infelizes devem prestar a todos os demais.
Pelo menos nos olhos dos não-mesários parece ser assim, e deve ser esta a razão para o TRE chamar sempre os mesmos: limitar o número e a visibilidade dos insatisfeitos. Se a motivação fosse garantir mesários mais experientes e competentes, a remuneração seria um meio muito mais eficaz de atingir este objetivo.