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A quem interessar possa

segunda-feira, dezembro 26, 2005

A Malícia da Carne

Churrasco! Esta palavra sozinha me faz começar a salivar. Cada churrasco com os amigos é um evento inesquecível: deixamos de lado as boas maneiras e a moderação, comemos como porcos (porcos canibais, eu diria) bebemos como gambás (se é que eles realmente bebem) e nos comportamos como gostaríamos de nos comportar a maior parte do tempo. Tem mulherada no meio? Ótimo (esquecemos o comportamento troglodita neste caso, tudo tem seu preço)! Não tem? Tanto faz, nem chuva estraga a felicidade de se empanturrar com pedaços de animais mortos.

É claro, nem sempre um churrasco é sinônimo de tudo isso, existe uma versão mais civilizada deste ritual tribal: As churrascarias. Fazia muito tempo que não voltava a uma churrascaria, e é assim que deve ser. Uma vez a cada ano e meio é a freqüência que eu julgo ideal hoje em dia, e ela tende a diminuir ao longo da vida para que meu estômago não se dilate até tornar necessária uma cirurgia de redução. Atualmente exportamos este modelo, não é difícil encontrar uma churrascaria nos EUA ou Canadá, e eles chegam a se referir a elas como “Restaurantes Brasileiros”. Feliz ou infelizmente, as churrascarias são muito mais que isso.

Churrascarias, mais que restaurantes, são templos da gula e do desperdício. Tudo é exagerado, o volume da conversa, a comida, e conseqüentemente, o preço. A maior quantidade de comida com ou sem sofisticação. Certamente o restaurante mais caro do Rio de Janeiro que conta com aparelhos de televisão no salão é uma churrascaria. Mas a sofisticação também pode ser valorizada nas churrascarias, caso alguém no grupo não goste de carne vermelha (essa gente...) não faltam opções: sushi, salmão, cavaquinha, jacaré... a Arca de Noé foi direto pro açougue.

As churrascarias têm também suas próprias estratégias para maximizar o lucro, são um pesadelo para os avaros. O preço já foi pago: cabe a você tirar o máximo disso! Se todos os pratos serão oferecidos pessoalmente e já foram pagos, pra quê um cardápio? Só se... Aháaaa, não adianta disfarçar, você queria olhar o preço das bebidas e da sobremesa! Que vergonha, como pode alguém vir a um restaurante numa ocasião especial e sequer pensar em economizar. Mas diante de tanta comida suculenta quem poderia sentir sede? As bebidas servem duplamente ao lucro, um valioso espaço destinado aos mais nobres cortes de carne agora está ocupado por líquidos.

Cada milímetro cúbico a ser ocupado em seu estômago apresenta um altíssimo custo de oportunidade. As generosas entradas: pão de queijo, bolinho de bacalhau, pasteizinhos de todos os tipos... Isso tudo é uma delícia, mas cada bocadinho a mais significa uma fatia de cordeiro a menos. Vale a pena sacrificar as mais exóticas iguarias pelas coisinhas simples que amamos? Javali! Aquela maravilhosa picanha de javali a caminho e você (!), você se enchendo de farofa?! A churrascaria é um mundo paralelo onde tudo é abundante e corriqueiro, a batata frita e a lingüiça podem se orgulhar de serem servidas no mesmo prato que a lagosta. Perdemos o medo de misturar, não há tempo para análise combinatória.

Não há tempo para nada, nem para conversar sem ser interrompido! O serviço das churrascarias é de tirar o fôlego, qualquer um se sente o rei. Fico com a impressão de que o próximo garçom a voltar à cozinha com alguma sobra na bandeja – ou demorar demais para esvaziá-la – será servido num espeto. Todos os serviços de buffet ou rodízio são péssimos se comparados a uma churrascaria mediana. Numa churrascaria, em vez de nos empurrarem pratos ruins em abundância para se livrarem logo dos otários que já pagaram (como no vulcão das massas), deixam o freguês se empanturrar com as delícias mais corriqueiras enquanto os pedaços mais nojentos (como cupim) são oferecidos discretamente, com a mesma freqüência que os pratos mais exóticos (e caros). O freguês se entope de picanha antes de poder provar aquela alcatra de capivara. Ganho duplo para o restaurante: o cliente sai satisfeito com o que comeu, e curioso quanto àquilo que não conseguiu comer, já pensando na volta – quando provavelmente acontecerá a mesma coisa, já que não se lembrará mais do que faltou na última vez.

Mas o que realmente caracteriza o rodízio de carnes é o desperdício. É impossível não se sentir culpado ao ver que enquanto várias crianças no Brasil passam fome, você está jogando fora o que não quer, ou não consegue, comer e ainda vai reclamar depois porque comeu demais. Eles sabem, e usam isso em seu favor. Eu olho para aquela fatia enorme e suculenta de picanha no meu prato e penso “se eu comer tudo isso não sobra espaço pra costelinha...”, e o garçom sabia muito bem disso quando cortou a fatia, tenho certeza. Mais que o terrível pecado do desperdício de comida, é desolador pensar nas almas dos animais que morreram em vão. Eu ainda consigo dormir com isso, tenho certeza de que o cordeiro me comeria com molho de menta se trocássemos de lugar, afinal ele sabe o que é bom. Era ele ou eu.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Huffman e o Mundo

A gente sempre encontra no último lugar onde procurou:

"A Pessoa é Para o Que Nasce", li em uma camiseta enquanto observava distraidamente as mulheres que entravam e saíam da biblioteca central. Fiquei automaticamente intrigado quanto ao significado daquela frase e por que ela estaria estampada em uma camisa. Li esta mesma frase mais algumas vezes até vê-la na camisa de alguém que não fosse um completo estranho, então pude finalmente perguntar.

É um filme sobre três cantoras cegas em algum canto do Brasil e deve ser um documentário muito bom pra ter toda esta publicidade gratuita, mas quando fiz a pergunta-chave quanto ao significado do título pude confirmar minha tese. Vejamos o desenvolvimento passo a passo:

"A Pessoa é Para o que Nasce" é uma maneira curta de dizer que as pessoas foram feitas para aquilo para o que elas nasceram. Hein? Claro, ficou horrível, até que o título original é mais bonito, mas falando desta forma se revela a verdade. Esta frase não diz nada! Partindo do princípio de que as pessoas nascem com uma função no mundo, então é óbvio que elas existem para aquilo que elas nasceram para fazer. Tá certo, eu sou chato e fico colocando defeito em tudo...

Antes disso, no primeiro semestre de 2005, aprendi um pouco sobre a Teoria da Informação, aplicada no desenvolvimento de códigos para telecomunicações. Graças a este tipo de raciocínio é possível quantificar a informação contida em um código, símbolo ou trama. A quantidade de informação é matematicamente definida pelo logaritmo do inverso da probabilidade de ocorrência deste símbolo, ou de forma mais simples: "Quanto mais óbvio o que é dito menor a quantidade de informação" (este já é um bom exemplo de uma frase que contém pouquíssima informação).

Será que é tão raro encontrar mensagens sem informação? Não, vivemos cercados delas e ainda assim conseguimos extrair um significado que não está contido na mensagem original, porque no fundo já sabemos o que deveríamos interpretar. "Verifique a classificação indicativa do filme", classificação indicativa de quê? Todo mundo sabe que é a restrição de idade para assistir ao filme, mas se todo mundo sabe, para quê repetir? "Proibido o consumo de substâncias ilegais", como se algo ilegal pudesse ser permitido. "Promoção válida em todos os estabelecimentos participantes", estava escrito em letras pequenas embaixo de um cupom, e não ajudou a descobrir que o Burger King do aeroporto não participa das promoções. Afirmar o óbvio é, portanto, perfeitamente natural.

A teoria da informação também esclarece que uma codificação se torna mais eficiente quando os eventos mais freqüentes (que contêm menos informação) são representados por códigos mais curtos. Ou seja, dizendo o óbvio com poucas palavras a comunicação é mais eficiente. No entanto percebi que a interpretação destas leis no mundo real tem suas sutilezas. A quantidade de informações óbvias no nosso mundo é tão grande que, na impossibilidade de se manter ciente de todas o tempo todo, precisamos perder tempo repetindo-as. A abundância de obviedades também faz cair a probabilidade de ocorrência de cada uma, fazendo com que individualmente contenham mais informação. Ou seja, nem sempre o óbvio é tão óbvio assim.

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A rejeição do óbvio é uma forma de vermos por que a criatividade às vezes chega a ser mais valorizada que a qualidade de um trabalho em si. Isto pode ser observado quando obras que não impressionam pelo primor técnico atingem status de obras primas. Ou, na música, um artista é aclamado por gerações e seu imitador, décadas mais tarde, é desprezado por uma parte do público enquanto outros conseguem admirar a qualidade da música sem compará-los aos antecessores (vide Oasis). Uma banda de rock progressivo nos dias de hoje não seria muito progressiva se fizesse lembrar as da década de 70. Adorei O filme "Wicker Park", mas fiquei impressionado ao descobrir que é um remake.

Também há casos onde a originalidade excessiva é vista como um defeito, uma dificuldade para a criação de um mercado, como vemos na industria de entretenimento em geral. Na verdade muitos de nós procuramos uma identificação coletiva quando consumimos algo. O que diferencia um clássico de uma velharia? O "The Who" é tão mais original ou melhor que o "The Guess Who"? A popularidade do primeiro faz com que o nome se preserve como um símbolo na cabeça do público, enquanto o segundo é hoje apenas mais uma banda velha. Ao mesmo tempo a indiferença do público ao segundo faz com que seus admiradores se sintam um público seleto que realmente sabe o que é bom em vez de apenas seguir a maré.

O esquecimento também pode ser usado favoravelmente, como no caso já mencionado dos remakes. No entanto uma das falhas dos remakes é muitas vezes justamente não perceber o potencial escondido nos filmes que já caíram no esquecimento (ou nunca deram certo) enquanto se refaz o que era perfeito. O mesmo pode ser observado no "sampleamentos" de músicas.

A repetição ou a banalização desmedida pode destruir da mesma forma que a total
surpresa pode ser uma barreira, afinal quem quer assistir a um filme que ninguém mais assistiu ou vai assistir? Ou escutar música da Argélia sozinho porque todo o resto acha insuportável. A barreira da estranheza pode ser transposta com festivais ou outras formas de divulgação, já o desgaste causado por "Anna Julia" em nossos ouvidos pode nunca mais ser reparado.



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Editei o título, o original era Humming e o mundo, mas eu me dei conta de que o nome certo do código era huffman. Hamming, com "a" é uma outra coisa. Parece que eu estava precisando voltar a estudar isso.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Isso não é música

Ultimamente venho perdendo meu interesse por música. Sexta passada fui ao show do Dream Theater. Isto deveria ser motivo de altíssimas expectativas, estado de espírito alterado por duas semanas, outras tantas semanas escutando os CD's e baixando músicas pela web sem parar. Nada disso, dois dias antes do show eu quase não pensava nisso, tinha comprado o ingresso com antecedência e corria o risco de esquecer se não fossem meus amigos e a propaganda. Qualquer um que ignore o Dream Theater não manja nada de música, o Dream Theater é o topo da cadeia alimentar, apesar do show não ter mostrado isso muito bem, mas não vou entrar nesse assunto diretamente.

A última frase não é verdadeira. Não de forma absoluta. Isto depende do que se quer dizer por música. Eu me lembro vagamente de ter escutado a música berbere da Argélia na casa do meu colega Amokrane em Montréal. Os compassos eram tão doidos e a harmonia era tão caótica que poderia ser uma viagem do Dream Theater. Eu disse "Legal!", ao que Amok respondeu "tem gente que escuta e diz, isso não é música, isso é barulho!". Eu também já disse esta frase várias vezes, mas ao ouvir (baile) funk, pagode, axé, hip hop, estilos que não me agradam, mas no caso da música argelina (não toda a música argelina, mas esqueci como se chama aquele gênero musical) seria perfeitamente compreensível, afinal realmente se poderia ter a errônea impressão de que os músicos ainda estivessem passando o som, cada uma à sua maneira.

Nossos ouvidos, em geral, são treinados desde cedo a ouvir música de acordo com a concepção ocidental da coisa. Escalas de oito notas, compassos múltiplos de três ou dois e sem muitas mudanças de escala, não manjo tanto de música pra explicar muito melhor que isso (e certamente já estou falando besteira). Uma das coisas que trazem o status de gênio a muitos músicos (Beatles, Jobim, o próprio Dream Theater) é a capacidade de sair do "normal" sem agredir os ouvidos. Não que o DT não agrida os ouvidos de ninguém, mas perto dos argelinos que eu ouvi, eles são muito caretas. Se chamarmos de música qualquer expressão artística feita através do som, motores de carro poderiam se tornar instrumentos musicais. Ainda assim, qualquer definição mais restrita que esta me parece injusta, afinal o próprio costume de discretizar todo o espectro de freqüências audíveis em conjuntos de 12 notas que se repetem em oitavas já é uma limitação.

Mas afinal, por que eu não pedi cópias de CDs desta música doida e trouxe pra cá para mostrar ao mundo o que eles estão perdendo? Na verdade eu mesmo, apesar de ter sentido a genialidade da coisa, não agüentaria escutar aquilo por horas. Quando não estou acostumado a um certo estilo não tenho a capacidade de apreciar cada música individualmente e por inteiro. Isto vem com o tempo, mas pode irritar quem estiver ouvindo contra a própria vontade. Talvez seja por isso que os americanos gostam de ritmos latinos, ou os ocidentais gostem de melodias orientais na música pop, mas só um gostinho, senão enche a paciência.

O mundo inteiro reconheceu a genialidade do "Buena Vista Social Club" mas não houve uma grande abertura do público em geral para a música cubana. Como se nós fossemos capazes de dizer que uns são melhores que os demais sem jamais termos prestado atenção nos demais. Perco um pouco do meu interesse pela música quando vejo que muitas vezes não estamos apreciando-a pelo que ela é, mas sim como um símbolo de algo que pouco tem a ver com música. Ainda vou falar mais sobre isso quando tiver certeza de que alguém está escutando.

domingo, dezembro 11, 2005

A morte do blog

Parece que já começou, um dos sinais está aí em cima. Estou falando da morte lenta e agonizante do meu blog. Criei este blog com alguns objetivos que posso listar, outros acho que eu nem sei direito. O primeiro e mais óbvio seria mostrar algo de novo e interessante no meu quotidiano no Canadá, ao mesmo tempo em que economizaria tempo ao escrever apenas uma vez no blog, e não várias vezes em e-mails.

Com o tempo, notei que ninguém se interessava tanto assim pelo meu quotidiano, e passei a escrever os vários e-mails mesmo. Quando passei a ter Internet na minha casa, pude usar o hello para postar fotos, e com isso aumentar bastante o conteúdo do meu blog. A partir de então pude escrever mesmo quando não tinha nada pra dizer, e o blog passou a ser de leitura mais fácil para nossa imensa população de analfabetos. Tudo bem, eu não tenho muitos amigos analfabetos, e poucos são os analfabetos que sabem usar um computador, mas de fato a assiduidade dos leitores aumentou, e a do autor também.

Depois que veio o inverno (e boa parte dos meus amigos foram embora) começou a ficar mais difícil ilustrar a minha vida, porque eu comecei a sentir que não tinha mais vida, passando os dias inteiros trancado dentro de casa. Depois passei a valorizar mais os amigos que ficaram e voltei a animar meu blog, mais fotos que textos, ao contrário do que eu esperava acontecer.

Voltando da viagem à Europa tive ainda um pequeno tempo no Canadá, que poderia ter sido produtivo, mas a falta de uma conexão novamente censurou minha vontade de escrever sobre minhas férias. Os posts que eu poderia ter escrito sobre minha viagem a Washington ou o Festival de Jazz de Montreal foram perdidos para sempre sobraram apenas as fotos.

Mas o recorde de ociosidade foi alcançado ultimamente com a falta de resposta dos leitores que sobraram, e a falta de criatividade e paciência do autor. Claro que não pretendo matar meu blog agora, é de graça e não estou perdendo nada a não ser o orgulho de saber que nem minha mãe lê isso agora que eu voltei e que os comentários são mais usados pra quebra paus com linguagem rebuscada. O título foi mais uma estratégia de marketing, como a morte do Super-homem.

Pretendo a partir de agora usar o meu tempo livre nestas semi-férias pra reanimar isto daqui e ver se a clientela volta (volta? quem? de onde?). Quem sabe, jogando minhas viagens aqui eu consigo viajar menos quando realmente precisar do meu cérebro. Infelizmente, apesar das belas paisagens do verão carioca as fotos não devem voltar ao nível de antigamente devido ao perigo de andar por aí com uma câmera no Rio de Janeiro.
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Por falar em morte, informo com pesar o falescimento do único gato que conseguiu conquistar meu afeto e amizade. Descanse em paz Elliot, espero que esteja feliz no Céu dos gatos (acho que fica perto do inferno dos peixes e passarinhos). Posted by Picasa