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A quem interessar possa

sábado, abril 22, 2006

Somos um Projeto Inteligente?

Eu não fico sempre por dentro do que está acontecendo no mundo, mas as vezes me surpreendo com algo que já aconteceu, todo mundo comentou e deixou pra lá. Lendo a Scientific American pude entender melhor o que era a implicância que professores e pais americano andavam tendo com a teoria da seleção natural de Darwin. Quando ouvi que pretendiam substituí-la no ensino fundamental por algo chamado ‘Intelligent Design’ pensei que alguém julgasse que desenho industrial fosse mais importante que Biologia, talvez até seja, mas não era nada disso.

Desde que aprendi sobre a seleção natural, achei estranho continuar acreditando em Adão e Eva, pelo menos literalmente, e jamais imaginei que fosse possível dizer que, se uma versão contraria a outra, a versão a ser ignorada seria a de Darwin, e não a do Antigo Testamento. Não posso julgar muito o tal do Projeto Inteligente porque não sei quase nada a respeito, só uns textos tendenciosos para um lado ou outro na Internet (se o dicionário é o pai, a Wikipedia é a mãe dos burros, vale a pena consultar), mas acho que pra contrariar Darwin tem que ser muito bom, ou um completo charlatão.

Quando meu pai me explicou a idéia da seleção natural, tudo fez tanto sentido que me senti burro por não ter me dado conta antes. As coisas inadequadas ao meio são eliminadas, dando espaço aos mais aptos, tornando possível a evolução mesmo que todas as criações novas sejam aleatórias. O princípio parece simples e pode ser aplicado a qualquer coisa na vida: tecnologia, religiões, sistemas de governo, arte, esportes, drogas, e já ia esquecendo, natureza. Dizem que o crack está acabando por si só (boa parte dos consumidores e traficantes acabaram morrendo). Claro que tem o lado ruim das coisas, é muito natural amar as coisas malfeitas ou inadequadas, especialmente quando se é uma delas. Lutamos para salvar as baleias, os micos leões dourados e os tigres em um mundo onde o que interessa mesmo é dar dinheiro a quem tem mais dinheiro.

O que causa algumas inversões fascinantes no nosso mundo é o fato de que, quando ameaçadas pela seleção natural, as coisas inadequadas ao meio podem mudar o meio, tornando-o favorável a si próprio. Assim vemos a sobrevivência dos regimes totalitários, a falsa banda larga que nos é vendida a peso de ouro, Rosinha Garotinho e o passeio completo nos países tropicais. É a primeira coisa que o ser humano aprende na vida. O bebê se vê em uma situação ruim e chora até que seu barulho torne a vida de seus pais insuportável enquanto suas necessidades não forem supridas. Depois o bebê cresce a aprende a queimar carros e, depois de tomar uma cacetada da polícia, chorar na frente da câmera para proteger seu primeiro emprego.

Até os nossos princípios morais (vide último post), que nos impedem de afogar o bebê e de aceitar que se solte a bala nos estudantes, podem se dever à seleção natural. As pessoas que afogavam seus filhos não deixaram descendentes com tendências a repetir o hábito dos pais. A falha da seleção natural como método auto-regulador é que ela apenas elimina os elos mais fracos da corrente, nem sempre eliminando as reais causas do problema. Num mundo onde o que interessa é ficar por cima, pouco interessa se a média está alta ou baixa, o que importa é estar acima dela, e para atingir este objetivo tanto faz se auto-superar ou estragar todo o resto.

É assim que eu vejo a falta de civismo que nos assola todos os dias. Estar no topo é o que interessa, mesmo que seja o topo de uma pilha de merda, e isto funciona muito bem enquanto os otários se afogam lá em baixo, tentando em vão limpar a sujeira e convencer todo o resto a fazer o mesmo. Surpreendeu-me ver na Polytéchnique de Montreal como funciona a venda lanches na sala do comitê de Engenharia Elétrica. Cada um pega o que quiser e deixa o pagamento na caixinha, simples assim, e por isso mesmo, tudo muito barato. Talvez eu esteja errado, mas aqui no Brasil (vou especificar melhor, na PUC), isto não duraria muito. Logo todos os alunos do ciclo básico descobririam a mamata, não ia sobrar nem refrigerante, nem chocolate, cerveja, e muito menos dinheiro na caixinha. Acho que em um país onde a sobrevivência dependeu por muitos anos da administração responsável da lenha que alimenta a lareira, qualquer tentativa de civilização teria fracassado sem que as pessoas pensassem no coletivo.

Outro ponto onde a seleção natural nos deixa na mão é que, hoje, boa parte da nossa carga genética deficiente pode ser compensada pela organização e tecnologia. Não tenho a menor dúvida de que alguém como eu não duraria muitos anos na selva. Assim vamos levando pra frente todas as nossas fraquezas que sobrevivem ao longo das gerações, bem como as mutações que vão acontecendo naturalmente. Em vez de eliminarmos os genes do diabetes e da hemofilia, vamos desenvolvendo métodos pra compensar essas fraquezas. Acho que só o estudo da manipulação genética em humanos pode nos salvar de um dia termos quase metade das crianças nascendo cegas. Alguém vai discordar de mim e me chamar de nazista, dizendo que se isso for permitido logo teremos gente escolhendo o tipo de naris, cor dos olhos, do cabelo (e dos dentes), que a variedade genética vai desaparecer e que o mesmo vale para os vegetais transgênicos. Tenho boas chances de estar enganado, e mesmo que se adote a solução errada a natureza vai cuidar do resto.

E assim temos duas formas de enxergar o futuro, seja a natureza corrigindo nossos erros aos poucos, ou eliminando de vez a causa do problema.

quinta-feira, abril 13, 2006

Conjunto Vazio

O que é ética? Mesmo depois de passar pelo importantíssimo curso de ética cristã da PUC eu não consigo responder corretamente a esta pergunta, talvez aprenda no curso de ética profissional...

Diferentes dicionários definem ética como filosofia da moralidade. E como diferenciar ética de moral? Moral é um sistema de princípios e julgamentos sobre o que é certo e errado. Na minha interpretação pessoal das palavras, tenho a sensação de que nos referimos à ética como um conjunto de valores morais comuns a um grupo fechado, enquanto a moral, esta sim seria subjetiva. Assim uma pessoa pode ter comportamento antiético sem ferir seus próprios princípios morais. Por que não? É perfeitamente compreensível que o que é impensável para alguns seja indispensável para outros.

Quem mora no Rio de Janeiro já passou incontáveis vezes por esta cena: Cruzamento de duas avenidas movimentadas, trânsito lento. Um ônibus, logo um ônibus, se mete a passar pelo sinal verde quando é óbvio que não haverá espaço para ele. O cruzamento fica bloqueado por longos minutos, e não haverá uma pessoa observando a cena que não pensará "que motorista mais filho da p...".

Parece ser um consenso ético que travar o cruzamento é errado, mas vejamos agora pelo ângulo do motorista: O cruzamento abriu. Preciso esperar que haja espaço para um ônibus do outro lado. Um ônibus ocupa o espaço de três carros enfileirados. Espero. Vagou um espaço. Um carro atravessa o cruzamento e ocupa este espaço. Vagou outro espaço, e outro carro atravessa e se mete nesse espaço também. Parece que se todos os motoristas de ônibus agissem de forma ética não teria como passar de ônibus por certos trechos na nossa cidade.

E quem transforma a moral em ética? Se fôssemos fazer a interseção dos valores morais de toda uma população, por mais homogênea que ela seja, acho difícil chegarmos a algo muito diferente de um conjunto vazio. É possível, a partir de uma única pessoa, compilar seus valores morais e chegar a um código de ética coerente? Acho complicado.

Sem querer ser repetitivo, mas não vendo outra escolha, vou usar o tráfego urbano como referência mais uma vez. Novamente um cruzamento entre duas ruas, mas de uma só pista e desta vez o sinal está apagado nas duas direções. Enquanto a Rua X, parada, vai acumulando carros, a Rua Y flui livremente com tráfego intenso. O primeiro carro na Rua X, o carro conduzido por Xavier, não vai se arriscar a interromper o fluxo. A única salvação da Rua X é que uma boa alma na Rua Y, o motorista Yuri, pare e ceda a passagem a Xavier, mesmo sabendo que a partir deste momento será ele próprio que estará na agonizante posição de observar os carros da transversal passando sem poder se mexer e ainda ter que agüentar os xingamentos e buzinas dos motoristas de trás. Desnecessário dizer que os motoristas na Rua X, depois de tanta espera, não terão tempo de dar uma palavra de agradecimento a Yuri quando ele lhes ceder passagem.

Felizmente, para evitar que fiquemos nos questionando quanto ao que é certo e errado, inventaram as leis. Assim fica tudo mais simples, está escrito e pronto. Acontece que em vez de FORTRAN ou C++, estas leis foram escritas em linguagens menos claras, e as leis saíram cheias de bugs. Para fazer o debug, em vez de engenheiros de computação, foram criados os advogados. Cheguei um dia a pensar que se leis fossem escritas por programadores, e não por advogados, nossas leis funcionariam bem melhor, mas por mais passível a falhas que seja, o português é bem mais fácil de entender que FORTRAN. Além disso, depois de conhecer alguns programadores a gente começa a gostar dos advogados.

Isso tudo vem à minha cabeça e quando vejo os culpados pelo que acontece em Brasília serem julgados por uma comissão de ética. Para quê uma comissão de Ética? Não temos leis? E depois vemos que as decisões da comissão de ética de nada adiantam quando se tem amigos que podem te ajudar sem se expor a risco algum. O discurso de João Magno me emocionou tanto quanto o de ACM antes da renúncia. Podia-se ver que em momento algum sua moral foi ferida pelo que fez. Querem nos convencer de que todos os absolvidos do mensalão são tão inocentes quanto o motorista do ônibus. Alguém acredita?


Em vários dos inúmeros discursos proferidos por nosso querido presidente, o vimos mencionar que seus companheiros erraram, que estamos passando por uma crise de ética, marcada pelo denuncismo. A princípio achava que ‘errar’ fosse um eufemismo para ‘sacanear’ e que a "crise de ética" fosse uma maneira de dizer que há um problema maior que a falta de cara de pau de seus companheiros (e dele próprio), como se em algum momento a ética tivesse aflorado por todos os cantos do país.

Depois de alguma reflexão a respeito disso, percebi que, de certa forma, Lula foi sincero. Roberto Jefferson, o primeiro culpado que me lembro de ter visto realmente sendo afastado, não foi afastado pelo envolvimento no esquema, e sim por acusar sem provas! Preferia ter ficado sem saber disso, mas agora vejo perfeitamente qual é o sentimento por trás do desapontamento de Lula.

A coisa mais antiética para grande parte dos brasileiros é a delação dos colegas, isso nunca foi segredo. É isso, o denuncismo, que marca a tal ‘crise ética’. Para Lula, foi apenas nisso que os companheiros erraram. É isso que tanto envergonha nossos governantes. Roubar é para eles algo perfeitamente natural, que foi feito sistematicamente ao longo dos anos. Seria antiético, portanto, privar justamente o PT deste direito. Já esse denuncismo todo é de partir o coração... onde esse país vai parar?

sexta-feira, abril 07, 2006

Por que não escrevo mais

Não que tenha uma porrada de gente reclamando, mas como uma só pessoa já representa 70% dos leitores vou dar umas satisfações. Acho que atualmente a minha maior razão pra escrever seja mesmo perpetuar minas idéias, antes que eu esqueça ou que nunca tenha oportunidade de estruturá-las. Que idéias são essas? Aquelas que brotam quando eu estou tentando manter meu foco em coisas mais importantes ou quando não estou com vontade de pensar em nada, portanto muitas vezes mal posso dizer que são minhas.

Elas continuam brotando, e infelizmente quanto mais tempo passa sem que eu as jogue pra fora, mais tempo elas ficam na minha cabeça mal resolvidas como almas penadas. Então pra revelá-las ao mundo eu tenho que passá-las por um certo tratamento.

-Primeiro eu tenho que ver mesmo se faz algum sentido ou se e só perda de tempo mesmo, não é muito leal ficar escrevendo merda por aí pra daqui a 30 anos alguém chegar com um pedacinho comprometedor de papel.
-Segundo, tenho que pensar em uma boa forma de expressar a idéia em forma de palavras. Tem que ser claro e - o mais complicado - interessante pra alguém além de mim mesmo, algum dia eu chego lá.
-Não quero que ninguem fique com raiva de mim pelo que eu escrevo. Acho que na época do referendo quase saía porrada cada vez que se começava uma discussão a respeito, esse ano talvez tenha o do aborto e eutanásia, o sangue deve jorrar. Então tenho também que medir minhas palavras.

Tenho escrito pouco (acho que a última vez foi antes do carnaval) porque isso é um pouco cansativo, e depois não recebo muito retorno, apenas escrevo quando o próprio ato de escrever já traz um retorno em si, independente da repercussão. Não é falta de tempo exatamente. Como diz aquela correntezinha, é só não encher o pote de água antes de botar areia cascalho e pedra.

Devo em breve, escrever sobre déficit de atenção, ética e teoria da evolução, deixo aqui só pra me lembrar do assunto quando a hora chegar.