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A quem interessar possa

sábado, maio 20, 2006

Desabafo de um consumidor frustrado

Somos carteiras ambulantes. Umas mais cheias que outras, algumas mais fáceis de abrir que outras, mas somos apenas um recipiente temporário para nosso dinheiro. Uma hora ou outra teremos que gastá-lo, nossos predadores sabem disso. Não precisam mais se preocupar com nossa disposição para gastar, hoje somos tão facilmente manipulados pela propaganda que rasgamos dinheiro sorrindo. "Beba Coca Cola" virou "Sempre Coca Cola" para terminar em "Essa é a real!".

Temos tão pouco tempo para ir ao banco que deixamos tudo no débito automático, pagamos com cartão de crédito e acabamos perdendo o controle, pagando pelo que não compramos, e ai de quem não pagar! Pesquisamos preços e descobrimos que, na impossibilidade de pagar menos, podemos em compensação pagar só um pouquinho a mais e receber muito mais em troca.

Não virei comunista de uma hora pra outra, simplesmente comprei um celular novo. Agora, quando olho para aquela peça de plástico prateado, tela colorida e toque polifônico penso na grande besteira que fiz. Queria trocar de plano para pagar menos. Como o aparelho antigo não era meu (herança de família...), precisava trocar de aparelho e de número. Trocar de número não é um problema tão grande, apenas meia dúzia de pessoas têm o hábito de me ligar mesmo, seria fácil convencê-las a anotar uma nova seqüência de 8 dígitos. O chato foi trocar de aparelho.

O Nokia azul TDMA monocromático e monofônico da minha irmã era quase perfeito. O acesso TDMA poderia ser a explicação para alguns inconvenientes, mas nada que atrapalhasse o conjunto da obra. Alerta vibratório (sem maldades, por favor), toque discreto, agenda de telefones, modo silencioso, escrita inteligente, e programação de lembretes era tudo de que precisava. Percebi que a Nokia tinha descoberto a fórmula mágica dos celulares. Pretendia encontrar com facilidade uma contraparte GSM do antigo, que de quebra ainda seria menor e mais leve.

A Nokia jogou sua fórmula mágica no lixo. O único modelo pelo qual eu estava disposto a pagar não tinha escrita inteligente, e sem escrita inteligente não dá. Comprei um Siemens, com escrita inteligente, mas incapaz de me avisar da minha consulta no dentista, ou me lembrar de tirar xerox da minha carteira de identidade depois da aula. Agora terei que usar agenda como todo mundo ou continuar esquecendo de tudo. Percebo que fui seduzido por uma maldita escrita inteligente e um acesso à internet que nunca devo usar.

O grande problema é que desde que inventaram as câmeras, toques MP3, displays coloridos, chegaram à conclusão de que as carteiras mais gordas não estão interessadas em celulares sem câmera ou toques MP3, portanto os modelos mais baratos não precisam ser bons, essas carteiras magras e difíceis de abrir (como a minha) mal vão fazer diferença nos lucros, nem vale a pena disputar por esse tipo de consumidor. Ainda tem o fator psicológico a mensagem subliminar "Tá vendo, não quer câmera, quer pagar pouco? Fica com essa merda aí!".