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sábado, junho 17, 2006

A língua

É um orgão sexual que alguns degenerados usam para falar, disso todo mundo já sabe. Um importante componente da camada física de nosso sistema de comunicações ponto a ponto. Difícil imaginar como seria organizado o nosso pensamento antes de ser transformado em palavras formadas por sons.

Os sons que compões as palavras são o equivalente aos símbolos em um sistema de comunicação digital. Portanto as línguas são também uma espécie de sistema de modulação de valores em símbolos (curiosamente, sem passar pelos bits), ou seja, formas de onda que podem ser identificadas por um receptor. Quanto maior o número de símbolos, maior a quantidade de informação contida em cada símbolo, mais parecidos são estes símbolos, mais banda é necessário alocar para a formação de cada símbolo, e maior o risco da distorção e do ruído levarem ao erro de interpretação do símbolo.

Uma língua que use muitos sons poderia ser bem concisa mas exigiria um bom ouvido dos interlocutores, apenas um suspiro bem pronunciado passaria a idéia de toda uma frase. O problema é que a vulnerabilidade à interferência exige a inserção de redundância e códigos de correção de erro, o que prolonga as palavras ou complica a gramática. Mesmo sendo totalmente analfabeto em chinês eu imagino que esta seja a essência da(s) língua(s). Palavras com pronúncias impossíveis e pessoas que falam durante vários minutos para que, no fim, seu intérprete traduza tudo em três ou quatro palavras em inglês. Talvez eu esteja errado e isto seja conseqüência da censura comunista, não descobrirei nunca.

Os japoneses fizeram diferente. Não parece difícil para um brasileiro repetir com perfeição uma frase falada em japonês. As vogais e as consoantes são bem parecidas, eles parecem até ter menos sons que a gente, mas as letrinhas...

Depois de estudar espanhol por um ano, decidi, na ausência dos níveis seguintes na PUC, estudar alemão por um ano. Foi uma experiência frustrante. Quase todas as pessoas que escutam algo em alemão ficam com a impressão de que a língua é incorrigivelmente feia. Ao perceber que precisava-se cuspir para falar "eu" e "não", e que "menina" é uma palavra de gênero neutro (talvez se torne feminina após a primeira menstruação), decidi que valia mais a pena parar e estudar um pouco mais de espanhol. Até agora não cumpri a segunda meta deste plano.

Quando me preparava para visitar a Holanda tentei aprender um pouquinho pela internet. Esperava enfrentar um misto de alemão e inglês, mas me decepcionei de primeira. Se no alemão era preciso cuspir para pronunciar o "ch", o holandês me obrigava a escarrar para soltar o "g". Parei tudo antes de provocar um acidente.

Na impossibilidade de aprender uma língua nova, me consolo em ter aprendido um novo sotaque. O sotaque québecois levanta o astral de qualquer um, talvez da mesma forma que o sotaque português nos faz pensar que tudo é uma piada. Não consigo imaginar o que leva à formação de um ou outro sotaque, a não ser a mistura de línguas dos imigrantes e nativos. Talvez tenham sido os africanos que nos ensinaram a falar cantando. No Canadá descobri outra fonte de mudanças no sotaque: O clima. Tanto em francês quanto em inglês pode-se ficar com a impressão de que todos estão permanentemente de nariz entupido.

Mas as verdadeiras razões da formação das línguas de permanecerá um mistério pelo menos para mim. Padrões que se formam sem presença de moderador trariam soluções maravilhosas para vários problemas, mesmo que a solução soe como alemão.