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A quem interessar possa

domingo, agosto 06, 2006

milk the cow untill it dies

Para quem quiser ver como foi o meu discurso. Acho que lendo assim não tem a menor graça, mas a glória de ser orador é passageira demais. Quero aproveitar enquanto puder, acho que amanhã já deve ter acabado.

"Senhoras e senhores, Boa noite (tarde)

Estamos nos formando. É duro olhar pra trás e ver todo o tempo que nós passamos aqui, desde o ciclo básico até a escolha da ênfase. Muita coisa aconteceu. Só para citar algumas:

• A P-36 afundou
• Nosso número de telefone passou a ter 8 dígitos
• Passamos pelo racionamento de energia elétrica
• O World Trade Center caiu
• O Brasil conquistou o penta
• O Lula foi eleito
• As máquinas fotográficas com filme viraram Antigüidade
• O disquete de 3 polegadas e ½ também
• O tempo de busca por um arquivo de música se tornou mais longo que o download do mesmo
• SD-1 passou a ser obrigatória apenas para eletrônica (muito obrigado).
• A auto-suficiência em petróleo foi alcançada (em termos)
• Finalmente foi decidido um padrão de transmissão terrestre de televisão digital
• E o Brasil não conquistou o hexa,
• Mas podemos afirmar hoje com orgulho que o primeiro pé de feijão a crescer no espaço foi nosso!

Até agora eu não falei de muitas coisas ligadas à engenharia elétrica, mas é difícil falar do meu curso neste tipo de ocasião sem fazer ninguém dormir. Mas eu posso falar um pouco desta turma que está colando grau hoje.

Na verdade nós não somos UMA turma, não são muitos os que se conhecem desde o ciclo básico. Alguns estudaram por sete, seis anos, e tem até alguns que realmente conseguiram se formar em apenas quatro anos e meio, palmas pra eles.

Não é só isso que torna tão difícil se referir a todos nós como uma turma, nós somos muito diferentes. Alguns de nós já nasceram engenheiros. Eles vieram só buscar oficialmente um diploma que já era deles há muito tempo. Outros atravessaram o ciclo básico às cegas, e quando perceberam que estavam entrando na engenharia elétrica já era tarde demais.

No sistema de créditos cada um vai seguindo a vida no seu próprio ritmo. Uma hora eu cheguei ao meu primeiro curso da Elétrica (Modelagem de sistemas dinâmicos, ainda com o Térsio), olhei ao redor e me perguntei “será que eu vou ficar assim?”. Tenho certeza de que muitos olharam pra mim e se perguntaram a mesma coisa (talvez até mais assustados), mas uma coisa é verdade: Hoje nós somos todos um pouco mais parecidos (a beca ajuda).





É verdade, nem todo mundo teve uma participação tão marcante na formação de todos os colegas. Também é verdade que nem todos os colegas que marcaram a fundo a história de nossas vidas estão se formando aqui junto com a gente, mas felizmente as pessoas tendem a se aproximar nos momentos de tensão, e tensão é algo que não falta quando se estuda engenharia elétrica. Entre uma prova e outra, entre um trabalho de sinais e outro, um laboratório de conversão e outro, fomos nos aproximando e criamos laços fortes. (como os prótons que se repelem ao se aproximar, mas ao formar um núcleo... deixa pra lá).

Depois desta lenta aproximação tivemos que nos afastar ao escolhermos as ênfases. Controle de processos, Sistemas de Engenharia Elétrica, Telecomunicações, Eletrônica para os masoquistas, e para os sádicos: Sistemas de Apoio à Decisão. Temos entre nós também os aventureiros apaixonados por todas as engenharias que decidiram se formar em Controle e Automação (palmas pra eles também). Nós somos muito mais diferentes do que pode parecer olhando daí de longe.

Este caminho que nós percorremos até chegar aqui foi duro, mas não podemos deixar isso subir às nossas cabeças. Durante o curso acabamos desenvolvendo uma certa arrogância, nos achando muito espertos por entender a equação de Schroedinger, teoria das filas, como regular um controlador PID. Eu acabo pensando: se eu fosse tão esperto assim, talvez tivesse escolhido me dedicar a alguma coisa mais fácil. (E com uma proporção maior de mulheres nas turmas - estou falando de quantidade, não de qualidade.)

Temos muito a agradecer a todos que nos ajudaram a chegar até aqui, que nos apresentaram os desafios e nos guiaram até as soluções. Nossos professores, monitores e os técnicos dos laboratórios. Não fomos tão gratos assim, muitas vezes apenas criticando os métodos quando poderíamos buscar juntos nossa própria solução. Se há coisas que não conseguimos aprender na faculdade, podemos aprender com a vida e o trabalho. No meu primeiro dia de aula aqui na PUC, o decano Parise nos falou da importancia de ser auto-didata, isso é uma coisa que uma hora ou outra todos acabam aprendendo.

Hoje, a imensa maioria dos alunos que entram no ciclo básico do CTC aspira a Engenharia de Produção. Olhando para nós, para eles que estão sentados ali, eu me pergunto por que as novas gerações não querem seguir o nosso exemplo. Seria medo dos transistores e diodos? Superamos alguns desafios, mas encontramos mais desafios quando olhamos à nossa frente que quando olhamos para trás. E isso é animador, pois quer dizer que há muito trabalho pela frente. E somos nós que vamos realizá-lo."