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sábado, maio 12, 2007

Puro Racismo

Eram 9h30 da manhã de quinta-feira. Subi no ônibus 410 e reparei que um homem negro entre vinte e trinta anos me olhou assim que eu cheguei à roleta. Ele não era mal-encarado, estava bem vestido e não tinha nada de ameaçador, mas a cena me fez lembrar do que tinha acontecido algumas semanas antes, quarta-feira à tarde na mesma linha 410.


Eram 15h30, o ônibus estava bem vazio, e isso costuma ser bom. Desta vez não foi tão bom assim, pois quando cheguei à roleta reparei que um rapaz discretamente apontou para mim com os olhos, olhando em seguida para outro rapaz sentado algumas fileiras atrás. Os dois pareciam mais novos que eu, estavam mal-vestidos, eram mal-encarados e tinham algumas cicatrizes no rosto. Para completar o quadro suspeito, não tinham o menor jeito de bicha e eu não estava com um abacaxi na cabeça para merecer olhares tão atentos.

Na hora deveria ter me convencido de que eu seria assaltado naquele ônibus. Não sei se adiantaria alguma coisa descer do ônibus, mas eu não desci. Talvez tenha sido a curiosidade (ou burrice), de confirmar minhas suspeitas. Também pensei que poderia ser tudo paranóia, fruto da minha imaginação, ou o pior de tudo: racismo. Racismo porque o mais ameaçador dele era negro. O outro está naquela categoria que pode escolher de qual cor quer se declarar. Não demorou muito para que o não-negro atrás de mim me cutucasse pedindo uns trocados e em seguida anunciar o confisco de todos os bens que tinha comigo.

Foi aí que eu reagi de forma inesperada, decidi que se ele ia me assaltar (por que logo eu entre todos naquele ônibus?) ele teria de fazê-lo sob os olhares de todos. Perguntei em voz bem alta se ele confirmava que estava me assaltando e se era ele ou o colega na frente que estava armado. Se ele quisesse me assaltar e estivesse armado agora teria que assaltar todos os passageiros no ônibus. Chega de assalto a dedo, a partir de agora só fecho negócio com assaltante credenciado. Felizmente para mim estes não mostraram as credenciais, tentaram disfarçar e acabaram descendo do ônibus dizendo que se estivesse na rua estourariam minha cara. Poderia ter tido um final bem menos feliz, mas felizmente não perdi nada e não estouraram minha cara.

Depois que os assaltantes agem chega a hora do motorista e do trocador soltarem aquele típico "Eu já sabia!". O trocador disse que suspeitou logo quando eles subiram juntos e sentaram separados. Suspeitou mas não fez merda nenhuma, muito obrigado, assim fico bem mais tranquilo. Preferi ficar quieto e não arranjar briga com mais ninguém.

Nesta quinta-feira foi diferente. Eram duas pessoas bem normais. Não tão normais assim, porque estavam usando uns tênis diferentes e conversavam em voz baixa. Brasileiro não costuma conversar em voz baixa, a não ser quando está fazendo alguma coisa errada. Quando chegamos à altura do Parque Lage, onde aconteceu o incidente do 174, eles trocaram de lugar e foram se sentar na frente do ônibus. Trocar de lugar em ônibus é outra coisa que não se faz, o alarme começou a soar mais alto. Agora parecia que eles iam assaltar o ônibus inteiro, um sujeito de mochila na minha frente levantou e saltou do ônibus.

Não se salta do ônibus na altura do Parque Lage, se ele saltou ou foi porque tinha a mesma suspeita que eu (mas não a mesma curiosidade), ou porque o trânsito estava lento e valeria mais a pena ir andando. De fato o garoto que saltou continuou descendo a Jardim Botânico. Mais à frente houve outra deserção: Outro rapaz segurando um livro com carimbo da biblioteca da PUC desceu e continuou andando no mesmo sentido que o ônibus (se ele não estava indo para a PUC, pegar o 410 foi uma coincidência muito grande). A essa altura até o motorista não parava de olhar pelo retrovisor para conferir os passageiros ilustres.

Comecei então a prestar atenção à conversa deles, percebendo que eles falavam tão baixo que eu nem sequer conseguia entender em que língua eles falavam. Ficou claro que se eles falavam baixo demais e pareciam descolados demais em comparação com a média dos negros brasileiros, era porque eles de fato não eram negros brasileiros. Constatei então que dessa vez toda a minha suspeita era de fato puro racismo, e que eu provavelmente não era o mais racista do ônibus. Eles desceram junto comigo, e eu nunca saberei se eles chegaram a perceber que chamaram tanta atenção sem fazer nada demais.

Pouco tempo atrás havia tinha uma campanha que perguntava “Onde você guarda o seu racismo?”. Eu sou daqueles que deixam guardado para usar apenas em ocasiões especiais, e constatei nesta quinta e naquela quarta-feira que nem sempre é na ocasião certa. Tem aqueles que não guardam, fazem questão de mostrar pra todos - acho que os negros são os únicos que podem se encaixar nesta categoria e ainda por cima posar de defensores dos direitos humanos. Outros vivem num mundo onde não existe racismo, todos são iguais e vivem juntos em harmonia. Espero que o meu racismo não seja tão puro assim. Ainda acho que das três categorias eu ainda me encaixo na mais apropriada à nossa realidade, pode me prender.

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