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A quem interessar possa

segunda-feira, junho 18, 2007

Vrum vrum, pá pou, nham nham

A Ilha do Governador é um dos lugares onde eu pretendo nunca morar. Nada tenho quem mora lá, pelo contrário, tenho muito carinho e respeito pelos meus amigos que vivem lá, pois alguém tem que fazer esse trabalho sujo. Já ouvi que a situação econômica de um lugar pode ser medida pela quantidade de táxis nas ruas. A Ilha vai além disso, o que me surpreendeu foi a quantidade de vans nas ruas, muito mais do que sonha nossa vã filosofia (desculpe, eu tentei). Parece que a procura por táxis não é muito grande na Ilha

Não quero fazer inimigos, quando eu não gosto de um lugar eu simplesmente não volto, mas pelo menos alguma coisa boa tem na Ilha do Governador. É o lugar mais fácil de se marcar vistoria com o DETRAN. Claro que nada vem de graça neste mundo, marquei a vistoria às 8h45, cheguei na hora, esperei uma hora na fila e terminei de ser atendido por volta de 11h30. Como cria da Zona Sul, tive muita preocupação sobre como chegar a Cocotá. Passei muito tempo no Google Maps em busca do milagroso caminho para Cocotá que não passasse por nenhuma favela. Tarefa impossível, consegui chegar lá pelo caminho mais curto, passando só pela bordinha de uma favela que felizmente não era o morro do Dendê. Me senti um babaca elitista por ter esse preconceito de que entrada de morro é sinônimo de perigo.

Quando me preparava para sair, ouvi os pipocos. Perguntei: "Gol de quem?" O sorrisinho de meu interlocutor confirmou minha suspeita. "De onde vêm os tiros?", perguntei. O cara apontou "Do morro do Dendê".

Respondi com um certo alívio, "Nossa, pelo barulho pensei que fosse bem mais perto...". E é perto, o morro do Dendê ficava bem ali ao lado.

Mais uma pergunta infeliz: "Como faço pra pegar a linha vermelha?"
"É por ali mesmo", respondeu o homem, sem mover o dedo que apontava para o morro do Dendê.

Não tive dúvidas, peguei o mapa e pelo olhômetro decidi buscar um caminho para chegar à linha vermelha sem me dirigir aos arredores do Morro do Dendê. Nessa eu descobri mais um paradoxo: "Quanto mais se procura evitar favelas, mais favelas se terá a evitar" (este entra no mesmo capítulo que o paradoxo de Porto Alegre, onde o caminho mais curto nunca é uma linha reta). A explicação é quase óbvia: quanto mais se evita favelas mais longo o caminho, e quanto mais longo o caminho maior a probabilidade de passar por uma favela.

Dei uma volta pela Ilha e voltei ao mesmo ponto. Como não ouvia mais tiros decidi ir pelo caminho ortodoxo, e tudo deu certo. Neste percurso acho que ouvi rádio por tempo demais, e percebi por que a Band News é mais popular que a CBN: A CBN é séria demais, só dá notícias ruins e entrevistas com figuras importantes. A Band news noticia um monte de bobagem e até passa algumas notícias boas (tornando o ouvinte um porco feliz), não concorre com outras rádios de notícia, e sim com as rádios comerciais que costumam tocar música. Foi uma boa idéia, já que a facilidade atual de baixar músicas ilegalmente e gravar 700MB de música em um CD para ouvir no carro tornou muito obsoleta a experiência de ouvir música no rádio (cheia de ruído, jabá e intervalos comerciais). A notícia ainda tem o privilégio de não sofrer com a pirataria, esta foi a grande sacada.

Uma das notícias bobas e alegres que fizeram o meu dia de hoje foi que a superpopulação de javalis e porcos do mato no Paraná está levando o Ibama a autorizar a caça destes animais. Já estou salivando.

A outra é que o Sandro Gama vai mudar seu nome para Dercy Gonçalves se o Grêmio vencer o Boca Júniors com quatro gols de vantagem.

Força Grêmio!!!!!

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quarta-feira, junho 13, 2007

Vocabulário

É complicado criar novas palavras. Imagino que tudo tenha começado com urros e grunhidos, a partir daí uma espécie de seleção natural deve ter ajudado a formar palavras com radical, suas variações e daí por diante. É meio difícil saber de onde vieram palavras como Sim e não, alto e baixo, mas palavras como "mesa" costumam ter uma palavra mãe que em geral eu desconheço. À medida que se inventam novas coisas é preciso inventar palavras que as designem, e eu acho que temos falhado miseravelmente nessa tarefa. Eis as razões:

  • Marcelo Marmelo Martelo
Este é um dos primeiros livros que eu li quando era criança. Acho que todos na minha geração leram, porque eu li, e olha que eu não era de ler muito. A história se resume a um garoto que se revolta com os nomes das coisas que não fazem muito sentido e começa e inventar. Acontece que o mais importante na comunicação é a padronização, a lógica não é muito importante. Não adianta dar bons nomes às coisas se ninguém além de você os entende. Eu nem lembro como a história termina, mas acho que a mensagem é essa. Este é um livro que eu gostaria que meus filhos lessem, porque no fundo achei a idéia do garoto muito legal e certamente não aprendi a lição que ele aprendeu.


  • Traduções Mal Feitas
Quase todas as nossas palavras são derivadas de outra língua, algumas foram aportuguesadas e outras foram traduzidas, mas isso é coisa do passado. Aportuguesar é para os fracos e pobres, a moda agora é escrever tudo verbatim. E-mail, home-theater e shopping center são escritas em bom inglês americano, emeil e chopincenter seria paraibada. Detalhe, abajur e gol são palavras estrangeiras aportuguesadas e não há nada de errado com elas, qualquer um sabe como pronunciá-las ao ler pela primeira vez. Quando mantemos a grafia original guardamos a elegância, mas muita gente passa a escrever errado e pronunciar errado (como no caso de waffle).

Tradução mal feita é outra desgraça. Cult-movie virou filme-cult e quase todo mundo automaticamente associa ao tipo de filme que as pessoas "cultas" assistem. Cult movie não quer dizer nada disso, pelo menos a princípio. Seria o tipo de filme ao redor do qual se cria uma espécie de culto, um filme cultuado. Não é necessariamente um filme assistido apenas por pessoas metidas, De volta para o futuro é um tremendo filme cultuado, por que não?

Uma vantagem as não traduções têm, não precisamos aprendê-las em outra língua. Quando precisei traduzir memória concorrente para o inglês eu sofri muito. Especialmente porque antes de traduzir eu precisei entender o que quer dizer memória concorrente, isso sim foi complicado. No Québec, web-browser é chamado de fureteur, outra palavra que me deu arrepios. Traduzir palavras novas dá trabalho, tenho que admitir.

  • Regressão
Acho que podemos andar para trás quando abandonamos uma palavra prática na nossa língua para adotar uma palavra estrangeira. As vezes isso acontece normalmente e não traz nenhum problema, mas chamar artigo de paper? Pode ser que paper seja um termo mais específico que artigo, e é quando se trata de white paper ou green paper, mas a princípio artigo é uma publicação e paper é qualquer papel. Chamar álbum de book também é esquisito, mas não incomoda por se tratar de coisa de gente fresca. Artigo é coisa de gente séria e racional.


  • Palavras desnecessárias
Foi uma dessas que me motivou a escrever esse post (este é um dos casos em que eu aceitei a não tradução numa boa) infeliz. Pra quê jet lag? Eu sei que é o período de adaptação ao fuso horário depois de uma viagem, mas quem se deu ao trabalho de inventar uma palavra pra isso? É um fenômeno comum e tem sua importância, mas derramar o leite e molhar a mesa logo que se abre uma caixa também é um fenômeno comum e ninguém inventou uma palavra para isso (acontece comigo quase toda semana, especialmente depois que as caixas passaram a vir com aquela tampinha de plástico que nunca dá certo).

Anseio pelo dia em que será mais comum viajar de avião que abrir uma caixa de leite.

domingo, junho 10, 2007

Animais que não matei

Hoje eu não matei um gato. Eu sempre tive raiva de gatos. Eles são animais domésticos frágeis como qualquer animal doméstico, mas não dão a mínima pro dono. Aliás, não dão a mínima para qualquer ser humano, exceto a gata do meu amigo Hugo que certo dia ficou roçando na minha perna (não o Hugo, a gata dele). Eu não hesitei em levantar a minha perna e empurrar aquela gata folgada contra o móvel, o que deixou o Hugo bem puto. Tá legal: hesitei sim, mas fiz assim mesmo e hoje eu me arrependo disso, tadinha. Até gosto de gatos, sou bem mais propenso a adotar um gato que a adotar um cachorro, mas o que me irrita neles é aquela arrogância. Um gato pode depender de você pra tudo, mas ele sempre vai agir como se fosse você que precisasse dele. Acho que um gato que foge de casa e no dia seguinte encontra um cartaz com sua foto pregado no poste (desta vez é o cartaz, não o gato) tem boas razões para acreditar que é isso mesmo.

Cachorros são mais legais, tão legais que podem parecer meio idiotas depois de um tempo. Cachorros paparicam e querem ser paparicados, não escondem a própria fragilidade. São um pouco como alguns donos de gatos, ou pais de primeira viagem que acham o máximo cada cagada que o filho faz. Na verdade alguns donos de cachorro também são assim. Mas como eu não tenho gato nem cachorro nem filhos acho melhor parar de falar disso. A conclusão desse parágrafo seria que da mesma forma que um gato é uma espécie de cachorro boiola, o cachorro é uma espécie de gato idiota. Acho que eu tinha alguma linha de raciocínio que ia levar a essa conclusão, mas esqueci.

Por que estou falando de gatos e cachorros? Estou falando desses bichinhos porque, como disse na primeira linha, hoje eu não matei um gato. Eu estava saindo da Sacopã, rua livre, de madrugada em plena aceleração (dentro dos limites de velocidade, mas lembre que não há limites legais para a aceleração) quando um gato se joga na frente do meu carro. Eu freei e o gato viveu para contar a história de como sobreviveu a esta manobra estúpida. "Gata, eu me joguei na frente do carro e o homem lá dentro freiou! Eu tenho certeza, é a gente que manda neles, gata!". Se fosse um cachorro eu acho que também tentaria frear, mas se fosse um pombo ou um rato eu passaria por cima (experiência comprovada). Isso não se deve apenas ao pouco estrago que um pombo ou um rato causariam à suspensão, é uma questão do valor que damos à vida de um cachorro ou um gato.

Certo dia uma garota me disse que gostava de animais. Então eu perguntei-lhe se ela gostava de baratas e quase perdi uma amiga. Nós discriminamos muito os animais, é puro racismo mesmo. Eu já disse muitas vezes que a primeira coisa que faria ao chegar à China, Coréia ou Vietnã seria comer um filé de cachorro. Balela, quando vi as fotos tiradas no Vietnã de um açougue com os cachorros expostos fiquei meio enojado, acho que não comeria. Não quer dizer que eu ache errado, mas tenho a impressão de que meus instintos me impedem de fazer isso. Novamente não é porque ache esses animaizinhos quase seres humanos. É porque eles, como eu, são carnívoros.

Se o gato fosse alimentado com ração vegana poderia não ter a mesma sorte. Não recomendo...

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segunda-feira, junho 04, 2007

Marketing Militante

Eu tenho um hábito de ver teoria da conspiração em tudo, mas uma série de coincidências me chama a atenção. Todo mundo conhece o "Kibeloco", um grupo mais seleto conhece também o "Jacaré Banguela", o restante das pessoas trabalha e gasta seu tempo lendo coisas mais importantes. O kibeloco já é um blog industrial há muito tempo. Boa parte de seus posts é "kibada" de outros sites, mas a maioria é original, já o Jacaré Banguela parece ter começado a se profissionalizar a pouco tempo.

Em comum eles têm (além do humor) a publicidade disfarçada, ou advertainment. Recentemente o espaço do JB onde se lia "anuncie aqui" passou a ser ocupado por um ícone da campanha contra o bloqueio de aparelhos celulares pelas operadoras. Já o kibeloco foi menos discreto: Reservou um post inteiro (depois de um certo recesso) dedicado a reclamar do (péssimo) serviço da NET e chamou atenção para o ícone desta nobre campanha de defesa aos direitos do consumidor.

O que há de estranho nisso?

Será que fui só eu que reparei que semana passada a Oipassou a anunciar que não venderá mais aparelhos bloqueados? Será apenas coincidência esta série de eventos ou seria uma estratégia de marketing de guerrilha da Oi/Velox, contra as operadoras rivais (em particular o bloco vírtua/net/embratel/claro)? De qualquer forma espero que os consumidores levem vantagem com essa briga.

E eu já achei que propaganda na Internet se resumia a banners e adsense.

domingo, junho 03, 2007

ctrl + c , ctrl + v

Muito se fala e pouco se executa de Neil Young. É o caso de boa parte dos ícones do rock (Deep Purple, Led Zeppelin, Pink Floyd) que figuram nas rádios apenas com uma ou outra de suas músicas mais manjadas, mas certamente não as que os colocaram na história. Depois de muito ouvir falar, resolvi conhecer a música de Neil Young e até agora estou satisfeito. Não vou contar detalhes de como eu fiz para ouvir os discos "Harvest" e "Zuma", mas espero que isso não me impeça de ir para o céu.

Até agora, tudo o que ouvi do "Padrinho do Grunge" me soa como um meio do caminho entre Bob Dylan, Don McLean e Creedence Clea(...), nada que me faça lembrar Pearl Jam, mas ainda assim muito bom. Talvez seja muito bom justamente por não fazer lembrar diretamente nenhum outro artista, afinal a criatividade e a originalidade - seriam a mesma coisa? - contam muitos pontos quando se trata de música. Não estou falando da música que te deixa rico, estou falando da música que é lembrada mesmo depois de muitos anos sem ser ouvida.

Enquanto ouvia no carro "Lookin for a Love" me batia aquela sensação de que já tinha ouvido algo parecido antes. Ouvi outra vez, agora prestando atenção na letra, e veio o estalo: Neil Young plagiou Frejat :P. (ALERTA, isto deve ser lido com tom de sarcasmo)
Pode ser implicância minha, mas basta conferir a letra das duas músicas, especialmente o refrão onde até as melodias e a harmonia se confundem. O teste cego pode ser feito ouvindo dois amadores ao violão no youtube. O refrão de "Segredos" acontece aos 1:09 minutos, o de "Lookin' for a Love" vem aos 01:07 (perto, não?).

Longe de mim querer destruir a carreira do Frejat, até porque pesquisando na internet pode-se ver que não fui o primeiro a perceber a coincidência. O Frejat é uma pessoa com família para sustentar e que não mora muito longe de mim, além disso não quero dar-lhe motivos para agredir o mesário nas próximas eleições.

E então? Originalidade é a mesma coisa que criatividade? Acho que não. Por mais que "Segredos" não seja muito original (já achava isso antes de ouvir o Neil Young) a música não é idêntica e foi necessário um trabalho criativo para escrevê-la, mas não custava nada (ops, custa sim) creditar a inspiração. Se fosse assumidamente uma versão, entraria no hall das mais bem sucedidas. Em vez de se misturar a Rod Stewart por "Do you think I'm Sexy", poderia ter ficado bem ao lado de "Não chores mais", "Johnnie be Good" (por peter tosh ou cidade negra), e "Marvin" (pelos Titãs) - tá, "festa no apê" do Latino e "Adultério" do Mr Catra (Sim, é uma versão) não perdem para "Segredos" em qualidade nem popularidade. A diferença é que a razão dos rendimentos de Frejat/Neil Young é bem pequena se comparada a Rod Stewart/Jorge Ben. (Acho que o Mr Catra também já fatura bem mais que o Biquini Cavadão)

Ou seja, Frejat perdeu uma boa oportunidade de ser xingado por estragar uma música, em vez de ser xingado por copiar - que é bem pior. Mas ele teve seus momentos de glória e algumas músicas que se salvam, além de ter prolongado a vida do Cazuza em uns dois anos se o filme é fiel à realidade.

Sempre que me vejo criticando quem faz um remake ou uma versão lembro de Akira Kurosawa. "Os Sete Samurais" é um remake de "Sete homens e um Destino" (nunca vi nenhum dos dois), "Trono Manchado de Sangue" é uma adaptação de "Macbeth" (só vi o japonês). E se alguém resolvesse filmar um pornô chamado "Trono Manchado de Sêmem" ainda seria um trabalho criativo (com boa vontade até original) desde que fosse creditada a fonte de inspiração e que me pagassem uma graninha pela idéia do nome.

Quem sou eu pra criticar o trabalho dos outros. Tem gente que copia as músicas pela internet sem tirar nem pôr, não paga um tostão furado aos autores e todo mundo acha normal. Acho que pouca gente é inocente nesse quesito.