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A quem interessar possa

sexta-feira, setembro 07, 2007

Mea Culpa

Resolvi ir ao laboratório no feriado para me obrigar a estudar, algo que evidentemente não estou fazendo agora. Ao chegar encontro um colega peruano que me pergunta: "É o dia da pátria e você veio estudar? Não tem nenhum evento, desfile para assistir?". Tentei explicar a ele por quê não é um hábito muito forte entre os brasileiros celebrar o dia em que o Rei de Portugal, Brasil e Algarves deu o Brasil de presente para o filho. Mas como eu mesmo não sou grande entendedor de história, preferi não correr o risco de falar muita besteira. É fato que o 7 de Setembro não é tão amplamente celebrado quanto o "4th of July" ou o "14 juillet", não preciso nem recorrer ao meu batido argumento de que a importância de uma celebração pode ser medida pela quantidade de fogos de artifício queimada.

A melhor forma de aproveitar o 7 de setembro é usar o feriadão (se bem que, este ano, nem merece aumentativo) para viajar, ir à praia, aproveitar as belezas que fazem o nosso país um lugar tão especial apesar de todos seus problemas. Eu decidi não fazer nem isso. Acho este país um lixo e eu sou um dos culpados. Como passo o ano inteiro criticando os demais, acho que seria justo aproveitar esta data para pedir desculpas pelos meus erros, e até justificá-los.

Durante toda a minha vida eu pertenci à elite, em quase todas as suas formas. Nunca fui rico, mas cresci com meus dois pais (você sabe o que eu quero dizer, um pai e uma mãe) juntos, o que é em geral um ambiente familiar mais saudável que crescer com pais separados. Estudei em escolas particulares que nem sempre são superiores às escolas públicas, mas pelo menos não têm greve. Falo 3 línguas estrangeiras e tenho curso superior (em universidade particular, com isenção de mensalidade e sem greve), não estou trabalhando porque preferi estudar mais e recebo uma bolsa do CNPQ para tal.

Não aproveitei essa juventude privilegiada tanto quanto poderia ter aproveitado porque durante boa parte dela eu não sabia o que estava perdendo. Não há ninguém que eu possa culpar além de mim mesmo por não ter lido mais cedo alguns dos livros que mudaram minha forma de ver o mundo, naquela época eu jogava meu tempo fora lendo porcarias ilustradas e assistindo televisão. Não que eu tenha deixado de gostar de histórias em quadrinhos ou televisão, mas hoje eu sei o quanto isso é pouco importante e poderia ter aprendido isso mais cedo.

Nada dos 2 parágrafos auto depreciativos acima tem a ver com as desculpas que eu devo ao Brasil, mas fazem parte disso. O grande dano que eu causei ao país foi em 2002. Depois de quatro anos escutando críticas ao neo-liberalismo de todos os lados, sendo educado por comunistas frustrados - ensinando a história do país e do mundo de uma forma apaixonada que tanto encantava os jovens - eu não tive forças para pensar bem antes de agir.

É interessante a forma como a nossa cabeça amadurece com o tempo. Quando éramos crianças acabávamos quase sempre concordando com nossos pais, na adolescência desenvolvemos o senso crítico fazendo questão de discordar sempre que possível. Só alguns anos mais tarde que desenvolvemos a serenidade que permite admitir os erros e aprender com eles. Aos 18 anos eu ainda não tinha essa serenidade. Eu vi a Vale do Rio Doce ser privatizada, vi os frutos desta privatização serem consumidos rapidamente por uma crise econômica e, finalmente, passamos por uma crise energética no ano das eleições.

Era minha primeira vez de votar. Além da doutrinação esquerdista do ensino médio eu tinha a culpa por não ter tirado o título de eleitor aos 16 anos. O anseio por mudanças profundas era maior que as visíveis vantagens que a privatização das teles tinha trazido ao consumidor e ao mercado: mudanças sutis, mas que faziam parte de algo melhor. Eu tremia só de imaginar o impacto que minha subnutrida vida social sofreria naquela época se eu assumisse publicamente simpatia por FHC e pela candidatura de José Serra. Eu realmente acreditava que os argumentos da oposição eram baseados na atenta observação dos fatos, e não no fervor quase religioso que adequava a realidade à sua ideologia. O mais importante de todos estes fatores: Eu não tinha tido uma única oportunidade de ter provas concretas de que estava redondamente enganado.

Ainda assim, por trás de toda a ignorância, imaturidade, e impulsividade eu ainda não tinha 100% de certeza sobre o meu voto. No entanto, se tudo desse errado eu e o mundo veríamos e aprenderíamos com o erro: A oposição, ao chegar ao poder, se adaptaria à realidade e deixaria de rejeitar com tanta violência qualquer idéia que viesse da direita, e vice-versa. Nada disso aconteceu, e foi essa a constatação mais dolorosa desde então. Eu estava mais errado que eu poderia imaginar.

Agora já é tarde para corrigir o que aconteceu e prevenir o que está para acontecer. Eu votei no Lula em 2002. Felizmente me dei conta do erro a tempo de não repeti-lo em 2006, mas não adiantou. Agora só posso me lembrar com nostalgia daqueles dias em que a Venezuela ainda ficava tão longe. E torcer para que ela não chegue ainda mais perto.