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A quem interessar possa

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Sonho de Consumo

Sempre quis ter um relógio binário, desde que descobri que isso existe. Devido às complicações de adquirir o produto aqui no Brasil, eu consegui segurar meu impulso consumista até agora e minha última consulta ao Mercado Livre não mudou isso. O preço do vendedor que encontrei é R$450, mais que o triplo do que se pagaria no think geek. No entanto é preciso tirar o chapéu para a lábia de vendedor do cara. Para a maior parte das pessoas é apenas um fetiche nerd, para ele é um símbolo de status, uma ferramenta de ascensão social.

Transcrevo aqui o FAQ da peça (melhores momentos):


5-) Qual a vantagem de ter um Relógio Binário?

R: É muito simples: Aos olhos dos outros você é o que veste ou usa! Na maioria das vezes, pessoas desconhecidas sentir-se-ão curiosas e impelidas a fazer perguntas sobre este relógio: como funciona, onde foi adquirido, etc. Isto lhe dará uma chance de deixar seu cartão de visitas e dar início ao seu Networking.
Como pode ver, esta é uma poderosa ferramente de Engenharia Social - indispensável para pessoas que vivem da sua imagem ou que se relacionam com um público mais sofisticado: atores, jornalistas publicitários, representantes comerciais, etc ...

Adorei o indispensável

6-) Corro o risco de me chamarem de Nerd?

R:Só se você quiser: Quando perguntarem como este relógio funciona fuja da armadilha de explicar o "Sistema Binário". Seja simples: Explique com exemplos que fica fácil. Chame a atenção para o estilo e o design fashion. Este relógio o ajudará a construir uma excelente imagem - principalmente aquela "Primeira Impressão" positiva seja no ambiente profissional, seja em ocasiões descontraídas... Ele o identificará como uma pessoa moderna e intrigante: Um verdadeiro Insider!!


Armadilha?! Como assim? Existe prazer maior que explicar o "Sistema Binário" a um leigo?



Eu ainda acho meio demais gastar 140 reais só para me sentir um nerd mais descolado, mas pagar 450 para me tornar um verdadeiro insider é uma verdadeira pechincha.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Etile ed aport

Acaba de sair um método que permitirá estimar se o vazamento do filme Tropa de Elite e todo o Buzz gerado em conseqüência sabotaram ou não a bilheteria na estréia: Até onde eu fiquei sabendo não houve vazamento de Meu nome não é Johnny, filme que eu assisti ontem e que é a antítese de "Tropa". Se "Johnny" for um sucesso menos arrebatador que o primeiro, pode ser um indício de que o Buzz clandestino ajudou. Não é uma prova, só um indício.

OK, antítese é só uma licença poética, na verdade eu quero dizer que os dois filmes tem muitas coisas em comum e muitos aspectos nos quais diferem radicalmente. Vou começar com as semelhanças:

  1. Os dois são excelentes ("Johnny" é mais divertido, "Tropa" é mais marcante)
  2. Os dois são inspirados em livros de sucesso (Não li 'Johnny', mas 'Elite da Tropa' apesar de ser bem diferente do filme fez parte do mesmo projeto)
  3. Ambos giram em torno do tráfico de drogas
  4. Ambos são inspirados em histórias reais ("Tropa" usa aquele velho recurso de jogar várias histórias no liquidificador, deve ter algo disso em "Johnny" também)
  5. A corrupção policial faz parte da trama
  6. O crime é mostrado como algo corriqueiro

Agora as diferenças radicais, e vale a pena elaborar mais nesta parte:

Tropa de Elite causou uma catarse na platéia. Arnaldo Bloch classificou de fascista, João Paulo Cuenca tachou de reacionário; e muito velhinho deve ter saído no meio do filme. "Meu nome não é Johnny" é um filme light, cheio de gracinhas que vai agradar à toda a família. Afinal, numa época em que um filme infantil pode se chamar Os Porralokinhas as crianças nem devem mais se chocar com cocaína. Vão perguntar "Papai, por que ele tá cheirando aquele pó branco?"- e o pai vai responder- Pra ficar bem animado, igual o Bob Esponja. Aliás, o filme inteiro passa a impressão de que não tem nada de errado com a cocaína e que maconha é coisa de criança mesmo.

Tropa de Elite joga na cara de todos a realidade cruel que os usuários de drogas estão patrocinando. Em "Johnny" tudo é festa e flores, até eu fiquei com vontade de largar essa vida dentro da lei para viver vendendo toneladas de pó. As únicas pessoas violentas fora da cadeia são os próprios policiais. Os traficantes são todos gente finíssima. "Tropa" tenta ser realista, sacrificando qualquer possibilidade de fazer do protagonista um herói, daí a catarse.

Não estou dizendo com isso que o filme devesse ser proibido ou censurado, nada disso. Até entendo que o tal do João Estrela está vivo até hoje e ajudou na produção do filme, portanto o filme mostra o lado dele na história. Mas "Tropa de Elite" mostra o lado dos policiais sem esconder os seus podres, talvez por isso nenhum personagem em Tropa de Elite é diretamente associado a um personagem real. Meu nome não é Johnny mostra o lado do taficante, e o traficante é gente boa pra caramba (tem umas horas em que ele quase engana a mulher, mas nem isso ele chega a fazer). Não é aquele traficante preto e pé rapado que vive em média 35 anos, vai pra cadeia, apodrece, sai e continua na merda. "Johnny" é um cara que vira traficante porque quis, vai preso, é solto sem entregar os cúmplices (se entregou alguém isso é omitido no filme, talvez para manter a aura de "gente boa" do protagonista) e sai totalmente recuperado.

Apesar de fazer uma apologia danada ao tráfico de drogas, Meu nome não é Johnny é um filme muito bom. Gostaria de ter mais filmes brasileiros com a mesma qualidade - a ética se aprende em casa, não no cinema. Também gostaria de ver mais traficantes de classe média na cadeia junto com os animais que eles criam, mas isso vai ser mais difícil.

Fernando Collor de Mello deveria chamar Mauro Lima e Guilherme Fiúza para escrever e filmar sua biografia. Logo depois ganharia as eleições, mole mole.

Atualização: Alguém escreveu em 2005 um texto muito melhor sobre o mesmo assunto (na verdade é sobre o livro, mas o tema é o mesmo), aparente com o mesmo ponto de vista que eu. Está aqui.

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