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sexta-feira, junho 20, 2008

O Bravo Ateu

Pouco falei até agora das razões de minha "conversão". Nasci católico, fui criado como ateu, e agora me preparo para a crisma. Crismar aos 25 anos, é bem diferente de crismar durante a adolescência quando qualquer rito é pouco mais que uma desculpa para fazer festa, e a preparação para a crisma é um encargo que se deve pagar para poder ser o centro das atenções por um dia. Ser crismado aos 25, depois de uma vida inteira sem sequer saber para quê serve o terço é praticamente uma conversão, e é assim que eu vejo a coisa. Logo, é lógico explicar por que eu decidi me tornar católico de fato.

Não tem revelação divina nem nada, é uma razão pragmática que pode ser dividida em pequenos pedaços. Eu continuo rejeitando o sobrenatural como rejeitava antes, mas não acho que o ateísmo generalizado seja um caminho para um mundo melhor, e um bom exemplo disso é o que eu vi ontem na livraria da PUC. O Livro Deus não é grande procura desmascarar as religiões como o veneno (é ainda pior que ópio, né?) da humanidade, uma conseqüência do medo, uma força repressora que atrasa todo desenvolvimento.

Não vou discutir sobre o que diz o livro, porque não o li, mas não consigo ver como as pessoas que rezam por um ente querido ou se reúnem aos domingos para a missa estão atrasando o progresso da humanidade. Provavelmente o que o autor quer atacar é o fundamentalismo, e o fanatismo religioso do qual a civilização ocidental demorou tanto tempo para se libertar. Hoje é perfeitamente aceitável ser um católico liberal, e surpreendentemente não é nenhuma tragédia entre os católicos mais liberais se verem cercados de ateus. É num ambiente tolerante como este que pessoas como Richard Dawkins e Christopher Hitchens se vêem livres para refutar publicamente a religião e ainda ganhar dinheiro com isso. O livro estava a venda no campus da Pontifícia Univesidade Católica, quem poderia imaginar 100 anos atrás que isso seria possível? É possível, Graças a Deus.

Quais são as conseqüências de um livro como o de Hitchens na sociedade? Vamos examinar:
  1. O Ateu olha o livro na estante e pensa: "Estamos vencendo!". Quer ele leia o livro ou não, isso não faz diferença alguma, ele continua o que era antes. Se o livro for de Richard Dawkins ele provavelmente vai se tornar mais culto, aprender coisas interessantes e se interessar mais pela ciência. O resultado pode até ser positivo formando melhores ateus, se o autor for realmente um cientista e não um niilista querendo aparecer.
  2. O católico conservador olha o livro, vira a cara e segue adiante inabalado.
  3. O católico conservador pega o livro, ferve de ódio, compra o livro (dindin!) e começa uma campanha quase inquisitória pedindo a proibição da venda do livro, ganha os jornais e o livro se torna um novo fenômeno de vendas (dindindindindindindin!).
  4. O católico mais liberal ignora o livro, mas ganha de presente de um exemplar do amigo (mais dindin para o autor) e escreve um texto desmascarando uma por uma as falácias e anacronismos usados pelo autor. Este texto provavelmente não será lido por muitos ateus.
  5. Outro católico liberal vê o livro, lê a orelha, pode até ler o livro inteiro. Alguns são influenciados e começam a flertar com o ateísmo, outros continuam os mesmos -- com algum enriquecimento intelectual se o livro for bom-- e outros se tornam fanáticos e fundamentalistas para se dedicar à luta contra a Igreja do Diabo.
Eu só abordei o caso dos católicos, mas imagino que o mesmo deva acontecer em outras as religiões. Como vocês puderam notar, é inimaginável que um fundamentalista possa se deixar convencer por livros como este. A única conseqüência visível é um possível afastamento dos liberais da Igreja, ou seja, um fortalecimento do fanatismo e do fundamentalismo. Exatamente o oposto do que pretendia o autor, mas este dorme tranqüilo certo de que fez um mundo melhor com suas milhões do cópias vendidas. Nenhuma destas cópias foram compradas no Afeganistão, Irã ou Arábia Saudita, é bom lembrar. O bravo ateu dorme tranqüilo, certo de que ajudou a livrar o mundo da tirania.

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