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sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Anthem, Atlas Shrugged e mais uma teoria da conspiração

Vão filmar Atlas Shrugged. Foi uma surpresa descobrir isso na mesma semana em que eu comecei a ler o livro. Uma semana antes do carnaval eu decidi ler alguma coisa de Ayn Rand, é uma decisão séria porque quase todos os livros são enormes e difíceis de encontrar. Felizmente passei pela Livraria da Travessa na Rio Branco e eles tinham edições paperback (não dá pra dizer que um livro de 1000 páginas seja um livro de bolso) em inglês, as traduções parecem impossíveis de encontrar mesmo. Pão duro de nascença, eu comparei Anthem (umas 100 páginas de texto, R$28,00) e Atlas Shrugged (1000 e tantas, R$32,00). Pareceu uma comparação injusta, portanto levei Atlas Shrugged sem pensar, ou melhor, pensando no custo por página.

No dia seguinte eu percebi que não era uma idéia sábia se empenhar numa leitura de um livro de 1000 páginas escrito por uma autora que eu nem sequer sabia se me agradaria. Por sorte eu tive que passar novamente pela mesma livraria e comprei Anthem. Pronto, eu tinha comprado dois livros de uma autora desconhecida. Li Anthem rapidinho e vi que valia a pena passar pro grandão.

Atlas Shrugged parece um pouco repetitivo pelo excesso de discursos, mas --- talvez até por causa disso --- emociona por ver como os discursos mais ridículos são justamente os que ainda encontram público nos dias de hoje. Justamente por isso que foi uma surpresa ver que tem um filme em pré-produção com expectativa de lançamento em 2011, com Angelina Jolie e Brad Pitt no elenco. Não parece certo.

Como é possível esperar boa recepção de um filme que exalta o individualismo e a virtude do egoísmo nos dias de hoje, cujo maior ídolo pop só fala de 'spread the wealth'. Talvez Obama nem seja um coletivista, mas ele precisou vender-se como tal para conseguir se eleger, tal a mentalidade coletivista dominante nos nossos dias. Fica a impressão de que este filme será feito apenas para tornar-se um fiasco e enterrar de vez o livro. É, eu sei, adaptações cinematográficas, mesmo as ruins, costumam aumentar a procura pelo livro e qualquer porcaria que tenha o Brad Pitt faz sucesso, mas deixa a minha teoria conspiratória em paz.

O que eu sei é que, depois daquelas 2 horas sofridas vendo Benjamin Button (acho que só gostei dos primeiros 40 minutos) ninguém me faz ler o conto, nem se eu tivesse gostado do livro. E olha que não são 1000 páginas.


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Sobre Anthem:

É uma espécie de precursor de 1984. A diferença é que enquanto 1984 mostrava um mundo destruído pela corrupção dos ideais socialistas, Anthem mostra um mundo destruído pela fidelidade incorruptível aos ideais socialistas (algo muito pior). 1984 ainda sai ganhando porque Anthem cai numa armadilha da história. Em 1937 talvez Ayn Rand acreditasse que o socialismo levaria a Rússia à total decadência tecnológica, hoje nós sabemos que isso não aconteceu. Talvez tenha acontecido em Cuba, mas mesmo em Cuba eles não voltaram à idade da pedra.

Como a trama de Anthem depende desta decadência tecnológica, o leitor pode desconsiderar a mensagem do livro como paranóia anti-comunista, deixando a decadência moral em segundo plano (esta aconteceu de verdade, basta perguntar para quem decidiu fugir de Cuba mesmo que fosse a nado). O apocalipse de 1984 parece estar mais próximo do perigo real.

Também me desagradou o fato da edição que eu comprei contar com uma reprodução da publicação original anotada a mão pela própria autora, para mostrar as diferenças entre a publicação original inglesa de 1937 e a reedição americana de 46. O problema é que mal dá pra ler a reprodução do original, porque a autora fez questão de rabiscar tudo o que decidiu retirar do texto, pode-se ler o que foi acrescentado, mas não o que foi removido (parece até uma espécie de censura). A não ser que você seja um fanático objetivista ( seita dos seguidores de Ayn Rand) procurando uma relíquia, o anexo da versão original é apenas desperdício de papel.

Se o enredo de Anthem não é lá tão grandioso, pelo menos a mensagem veiculada é forte e inspiradora.

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