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A quem interessar possa

sábado, março 14, 2009

Watchmen

Watchmen é um dos filmes que eu seria capaz de ver duas vezes no cinema. Afinal, a expectativa era tão grande na primeira vez, que eu não estava de fato assistindo ao filme, e sim comparando-o quadro a quadro com a minha memória residual da leitura da graphic novel. Nesta comparação eu percebi duas coisas:
  1. O filme está tão fiel ao original quanto poderia, considerando-se as limitações de tempo e de linguagem.
  2. O filme deve ter sido bem chato para quem não tinha toda essa expectativa.

A adaptação mais perfeita na história de quadrinhos para o cinema deve ter sido Sin City. Ou 300, tanto faz, mas deve ter sido uma obra de Frank Miller. Frank Miller é um roteirista de filmes policiais disfarçado de roteirista de quadrinhos. Toda a linguagem é perfeitamente cinematográfica, a narração cabe perfeitamente naquela voz rouca em off típica dos filmes noir (como eu me odeio por ter usado este termo manjado). 300 e Sin City imploravam página a página para serem transformadas em filme. Watchmen não.


Alan Moore não é Frank Miller. As narrações e as elocubrações de Dr. Manhattan não poderiam ser transpostas para a tela sem tornar o filme extremamente chato. Zach Snyder teve muito mais trabalho para levar pra casa fazendo Watchmen que fazendo 300. Ao meu ver ele teve mais acertos que falhas, entre o maior dos acertos estão a seqüência de abertura mostrando a trajetória dos Minutemen com fotografias ao som de "The Times They Are A-Changin" e o enterro do Comediante ao som de "The Sounds of Silence".


E seria ridículo me prolongar a respeito dos acertos, porque a graça está em falar mal, vamos lá.


Entre os erros estão:

  1. Pode jorrar sangue, mostrar toda a pele que se tem direito nas cenas de sexo, mas nunca personagens fumando! Parece que o grande tabu dos dias de hoje, mesmo para um filme com censura > 18 anos, é o tabaco. Heróis podem espancar, matar, mas fumar nunca. Essa censura ideológica resultou numa cena sem sentido em que Laury aciona um lança chamas no estilo "o que acontece se eu apertar este botão?". Abaixo, como deveria ter sido:
  2. Adrian Veidt deveria ser o homem mais esperto no mundo, mas nunca descobrimos de onde vem essa fama. No filme isso parece uma piada ainda mais sem graça que na graphic novel (que também tem seus defeitos). O homem mais esperto do mundo poderia até usar gel no cabelo, mas nunca deixaria a senha do próprio computador à mostra na própria escrivaninha (isso é um defeito herdado dos quadrinhos). Os avanços tecnológicos proporcionados por Veidt e Dr.Manhattan foram reduzidos a um gerador de energia limpa, e os carros elétricos só aparecem no epílogo. O mundo mostrado no filme era muito mais próximo da nossa década de 80.
  3. A falta de atenção dada ao Dr. Manhattan foi a causa da crônica sem sentido de Arnaldo Bloch no Globo de hoje. Não fica claro no filme por quê Dr. Manhattan não pode alterar o curso da história conforme a sua vontade. E ainda por cima cortaram minha linha favorita: "Todos somos (marionetes), Laurie. Eu apenas sou uma marionete que vê as cordas"

  4. A trilha sonora é ótima, mas houve um certo exagero. Clássicos do pop tocando em todas as cenas sem diálogos chega a ser irritante, pelo menos foi algo que me irritou em Juno. Além do mais, de quê adianta botar Jimi Hendrix, Bob Dylan e Simon & Garfunkel durante o filme, se nos créditos finais aparece aquele rock pesado típico dos filmes de ação.

  5. Falando em filmes de ação, as cenas de luta deixaram a desejar, parece que tentaram preencher o brilho que estava ausente (propositalmente, eu acho) nos quadrinhos. Corrijo-me, as cenas de luta que não envolviam Rorschach deixaram a desejar. Afinal, o único destaque das lutas em Watchmen era o vencedor mostrando sinais de cançasso no final. Não me lembro de jamais ter visto o Batman ofegante.
Talvez agora eu possa ver o filme de verdade, sem ficar esperando por determinado diálogo, ou determinada seqüência. Outra defesa ao filme digna de nota: A história não é tão boa assim se avaliada fora do contexto de histórias de super-heróis. A revelação inédita que Watchmen traz às histórias em quadrinhos é que um mundo com super-heróis não seria algo desejável.
Sei que muitas pessoas reclamaram de atores ruins. Ao meu ver, o único ator realmente ruim foi Mathew Goode como Ozymandias. O cara é tão ruim que nem tem foto no IMDB. Fora este, acho que todos cumpriram bem os papéis. Billy Crudup falava com voz monótona e sem expressão? Ora, Dr. Manhattan não poderia ter expressividade, ator ruim seria aquele que não conseguisse mostrar isso. E Laurie Jupiter foi estragada pelas mudanças no roteiro, não pela atriz.

Agora podemos esperar pela adaptação cinematográfica de Kingdom Come. Alguém pode me explicar por que nos créditos iniciais dizia "Based on the Graphic Novel by Dave Gibbons" sem creditar Alan Moore?
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PS: Acho que muita gente saiu do filme sem entender por que o Comediante era chamado comediante já que ele não faz uma única piada no filme todo (enquanto o próprio Rorschach faz 4 ou 5). Quando li os quadrinhos pensei que as piadas tivessem sido perdidas na tradução, mas também não foi isso. Talvez a piada seja justamente a ironia de um comediante que não faz ninguém rir. É Alan Moore invocando o tal humor inglês, né, quem vai saber? Acho que é isso que está representado no smiley ensanguentado.

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domingo, março 01, 2009

6 coisas sobre mim mesmo

Alguém a quem eu não me lembro de ter sido apresentado me convocou a falar 6 coisas sobre mim mesmo e convocar mais 6 pessoas a fazer o mesmo. Acho que fui convocado por engano, e que o objetivo era ter convocado alguém com um blog que tem um endereço parecido. Não vou correr o risco de aborrecer outras pessoas com este tipo de tarefa, mas como a tarefa de escrever sobre mim mesmo não me aborrece, vou acatar o desafio.

  1. Escrevo este blog desde 2004 porque gosto da sensação de ler coisas que escrevi há alguns anos e pensar que eu era um tolo quando as escrevi. Simultaneamente à sensação de que eu era um tolo 2 anos atrás, vem a certeza de que hoje eu sou muito mais inteligente e aprendi muitas lições. A vergonha e a sensação de evolução se complementam de forma maravilhosa. Outras vezes eu encontro coisas que eu me orgulho de ter escrito. Acho que ter um blog é um hábito saudável, não importa o quanto a sua vida seja desinteressante, talvez especialmente se sua vida for desinteressante. O humor involuntário é um gênero nobre de humor.
  2. Eu tenho dificuldade em encontrar o limiar entre ser gentil ou amigável com os outros e parecer um puxa-saco. Algumas vezes eu sou excessivamente grosso, outras eu realmente acabo sendo prestativo demais. Raramente consigo detectar estes excessos sem que alguém se manifeste.
  3. Em 2008 venci minha primeira partida de War. Foi muito marcante, e tenho certeza de que terá sido a primeira de muitas.
  4. Me casei no mesmo ano da partida vitoriosa de War. Minha mulher me recrimina por acreditar que eu celebre a partida de War tanto quanto o meu casamento, mas por outro lado eu não lembro a data exata em que venci a partida de War, nem comprei um par de anéis de ouro para gravar este dia. Isto prova que o casamento foi um evento mais importante.
  5. Eu deveria estar estudando agora.
  6. Acho que, daqui a 2 anos, ler este post me proporcionará aquela sensação descrita no item 1.

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